Campeã de barismo publica texto: “Todo mundo é bom em alguma coisa”

Quando eu entrei no Octávio café, há quase 3 anos, graças a indicação do meu grande amigo @arthurmalaspina, os meus colegas começaram a me apresentar às preferências de alguns habituês da casa: “aquele a limonada é com gelo separado”, “a da mesa 2 só toma longo, nem adianta tentar trocar”, “essa família não gosta de Petit four”, “essa gosta de 3 Petit four”…
até que um dia um senhor senta no balcão e todos me empurram pra atendê-lo cochichando:
“esse aí é um rabugento, nunca sorri!”. Eu ouvi NUNCA SORRI?!?!
>>> CHALENGE ACCEPTED<<<
respirei fundo e disse bom dia! Pois não? o jornal rumou com violência a bancada e descobriu um rosto marcado e carrancudo que disse como se eu já devesse saber: “um capuccino bem cremoso e um tostex”. Sorri, preparei e na hora da entrega puxei algum papo… Nem me lembro qual. Conversamos um pouco.
Na saída ele perguntou se eu era nova, meu nome e de onde eu vinha. O nome ele esqueceu… Mas explanou com um projeto de sorriso: o capuccino mais cremoso é o da gaúcha! E assim se repetiu por todos os dias que trabalhei no balcão.
Ele acompanhou, encorajou e comemorou cada uma das minhas conquistas.
Ontem, quando cheguei exausta dessa jornada insana na cafeteria, avistei no balcão o senhor com seu jornal em frente a um cappuccino e meio tostex esfriando. Puxei o banco do lado coloquei o troféu na frente dele e disse:
disseram por aí que eu sou a melhor barista do Brasil.
Os olhos abandonaram o jornal, olharam pra mim, depois o troféu e por fim a caneca de ágata onde ficam os guardanapos, a mão de pele e unha grossa apontaram a xícara como se pedisse: me alcança. Aproximei a caneca, ele pegou um guardanapo e enxugou as lágrimas.
“Eu não tinha dúvidas, gaúcha!”.
O senhor que nunca sorria, chorou.
Todo mundo é bom em alguma coisa e todos tem sempre uma coisa pra te ensinar.
O café me deu a chance de tocar muitas pessoas e talvez até de iniciar uma transformação na vida de quem bebe ou de quem faz essa bebida.
Não acho que eu seja a melhor barista do Brasil, fui a melhor nessa ocasião.
Agora, o balcão cresceu um pouquinho… Mas tudo continua igual: tocar e transformar.
Obrigada por todo carinho!

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Quando eu entrei no Octávio café, há quase 3 anos, graças a indicação do meu grande amigo @arthurmalaspina, os meus colegas começaram a me apresentar às preferências de alguns habituês da casa: "aquele a limonada é com gelo separado", "a da mesa 2 só toma longo, nem adianta tentar trocar", "essa família não gosta de Petit four", "essa gosta de 3 Petit four"… até que um dia um senhor senta no balcão e todos me empurram pra atendê-lo cochichando: "esse aí é um rabugento, nunca sorri!". Eu ouvi NUNCA SORRI?!?! >>> CHALENGE ACCEPTED<<< respirei fundo e disse bom dia! Pois não? o jornal rumou com violência a bancada e descobriu um rosto marcado e carrancudo que disse como se eu já devesse saber: "um capuccino bem cremoso e um tostex". Sorri, preparei e na hora da entrega puxei algum papo… Nem me lembro qual. Conversamos um pouco. Na saída ele perguntou se eu era nova, meu nome e de onde eu vinha. O nome ele esqueceu… Mas explanou com um projeto de sorriso: o capuccino mais cremoso é o da gaúcha! E assim se repetiu por todos os dias que trabalhei no balcão. Ele acompanhou, encorajou e comemorou cada uma das minhas conquistas. Ontem, quando cheguei exausta dessa jornada insana na cafeteria, avistei no balcão o senhor com seu jornal em frente a um cappuccino e meio tostex esfriando. Puxei o banco do lado coloquei o troféu na frente dele e disse: disseram por aí que eu sou a melhor barista do Brasil. Os olhos abandonaram o jornal, olharam pra mim, depois o troféu e por fim a caneca de ágata onde ficam os guardanapos, a mão de pele e unha grossa apontaram a xícara como se pedisse: me alcança. Aproximei a caneca, ele pegou um guardanapo e enxugou as lágrimas. "Eu não tinha dúvidas, gaúcha!". O senhor que nunca sorria, chorou. Todo mundo é bom em alguma coisa e todos tem sempre uma coisa pra te ensinar. O café me deu a chance de tocar muitas pessoas e talvez até de iniciar uma transformação na vida de quem bebe ou de quem faz essa bebida. Não acho que eu seja a melhor barista do Brasil, fui a melhor nessa ocasião. Agora, o balcão cresceu um pouquinho… Mas tudo continua igual: tocar e transformar. Obrigada por todo carinho!

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